sexta-feira, junho 17, 2011

Memórias de uma Cidade

Durante todo o século XIX, princípio do século XX, a Rua Escura e suas imediações (incluindo a Rua Direita e quase toda a urbe antiga), era, em Viseu, o Centro Cívico da cidade. Lá existiam um teatro, algumas associações culturais e recreativas, salas de chá e café, muitas tabernas, bem como várias casas de pasto, onde as pessoas se encontravam para se divertir, comer, beber, conversar e até fazer negócios.

Os tempos mudaram. A Revolução Industrial, ainda que, por cá, muito tardia, a pouco e pouco, acabou com tudo isso. A Rua Escura e as que nela desembocavam, como a Rua das Quintãs, tornaram-se zonas habitacionais de operários e de gente menos favorecida, em que se instalaram, também, uns tantos famosos lupanares da região.

Nos finais dos anos 40 do século XX, altura a que cheguei à cidade, já só era válida essa memória na Rua Direita, Rua Nova (Augusto Hilário), Rua da Cadeia (D. Duarte) e muito pouco mais, pois o resto era já uma urbe a querer acompanhar o comboio do progresso propagandeado e estupidamente executado pelo Estado Novo, sob a batuta implacável e dura de um Salazar mais retrógrado e preconceituoso do que um “velho do Restelo”.

Depois, nos trinta e tal anos subsequentes, foi o evoluir tímido, muito envergonhado e receoso para novos conceitos de vida, de urbanismo, e de arquitectura social que, nalguns casos, aleijaram e desvirtuaram a Cidade que só começou a tomar a forma e o querer de hoje com o retorno à Liberdade, trazida pelo 25 de Abril de 1974.

quarta-feira, junho 15, 2011

Ainda "... Sobre o Fado"

«Pôr o Fado nos pícaros da Lua;» | mas não fazê-lo canto nacional, \ porque não é canção forte que actua | na hora mais amarga e radical.

O Fado é um cantar triste de rua, | onde nasceu, cresceu e tem aval, | porém não é a balsa que flutua | e nos salva dum grande temporal.

Tenha louros dourados na cabeça, | ou, simplesmente, palha seca e dura, | el’ não é uma força que mereça

Honrarias de nobre por bravura. | O Fado não faz Gesta Nacional, | e jamais dá o “Brado Impulsional”.

segunda-feira, junho 13, 2011

...Sobre o Fado

«…Pôr o Fado nos píncaros da Lua.» – Afirmou, do alto dos seus mais de noventa anos, o Professor/músico Joel Pina, para enaltecer a canção portuguesa, candidata a “Património Cultural da Humanidade”.

Pois bem! Cá por mim esclareço: Eu não considero o fado, nem o reconheço, de modo algum, como a “canção nacional”. E, por certo, muitíssimas pessoas pensam como eu, já que é tremendamente difícil admitir que uma canção lânguida, na música e no verso, possa ser o motor de um Povo que, ao longo dos séculos, com vontade e coragem inexcedíveis, escreveu tantas e tão gloriosas páginas da sua e da História Universal.

Para se vencer na vida é preciso possuir muito querer, muito arrojo, e muito entusiasmo. Coisas que não abundam em tal tipo de manifestação musical, em que a saudade e a tristeza, mesmo quando a falar de algo mais alegre, são a essência de toda a sua textura.

È verdade que escrevi, para um grupo de fadistas visienses, a letra de alguns dos fados que, vaidosamente, interpretam. Mas isso, embora não rejeite um fado bem cantado, não faz de mim um adulador incondicional do Fado, nem que o eleja como canção nacional.

Fado “Património Cultural da Humanidade” sim. Todavia, nada mais do que isso!...

sexta-feira, junho 10, 2011

Santos Populares

Estamos no início das comemorações dos chamados “Santos Populares”, sendo o primeiro Santo António (para nós de Lisboa, para os italianos de Pádua) a festejar no dia 13. Depois será S. João Batista e por fim S. Pedro.

A estes três santos aceites pela Igreja Católica Romana, o povo dedica uma devoção muito especial que, na sua forma um tanto pagã, não é condizente com a austeridade e recato impostos pelos rituais religiosos daquela Igreja.

Mas o povo – vox Dei (voz de Deus) – na sua “ingenuidade” herdada de seus ancestrais, continua a saudar os seus taumaturgos bem à sua maneira, com entusiasmo e, quase sempre, usando práticas vindas do fundo dos tempos.

Deste festejar, resultante da crendice popular, pode-se assinalar o “saltar as fogueiras”, (hoje) no largo da povoação, mas que, há milénios, era realizado no cimo dos montes para assinalar a chegada do Verão – tempo de fartura alimentar e à-vontade do Ser humano que, pelo calor, se sentia liberto e, daí, senhor de si e que, por isso, sem complexos ou preconceitos, podia usufruir do corpo desnudado, gozando de todas as suas potencialidades, sem quaisquer peias.

Sejamos um pouco, consoante nosso conceito, pagãos. Festejemos os Santos populares com alegria. No entanto, sejamos parcimoniosos em nossos folguedos. Lembremo-nos sempre que o nosso direito de liberdade termina quando interferir e/ou coarctar o dos outros.

quarta-feira, junho 08, 2011

No rescaldo das eleições em Portugal

Nunca percebi porque razão, um país tão pequeno territorial e demograficamente, como o nosso, tem um parlamento tão “populoso” (230 deputados).

E, por outro lado, também não consigo entender porque motivo a Lei Eleitoral, define, como forma de atribuição de mandatos na A.R, o método de Honte (será assim que se escreve?) e não, como seria natural, o da proporcionalidade.

Pelo método em vigor só os grandes partidos têm assento no Parlamento. Pelo sistema proporcional, quase todos os (chamados) pequenos partidos teriam a possibilidade de mandatar, pelo menos, um deputado.

Será que o método proporcional iria criar a confusão ideológica ou, pelo contrário, iria enriquecer a discussão das ideias, dando voz aos cidadãos deste país, que, assim, estão, antecipada e eternamente, condenados a um silêncio acabrunhante?

Sem pretender, de modo algum, impor meu pensamento, sempre direi que é hora de mudar (esta palavra foi moda na campanha) o rumo das coisas, alterando o que, na Constituição ou nas Leis, deve ser modificado, desde que, claro, seja para melhor.

Estarei a ser burro? Talvez. Então haja quem me esclareça para que não continue a laborar em erro!...