quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Falta de tempo

Olá Maria José,

Ontem, ao ler uma das tuas mensagens no Facebook, deu-me para escrever o poema que se segue e que te dedico, como todo o afecto de uma imensa e verdadeira amizade. Aí vai:

O nosso Tempo já não tem mais tempo | Para sujar a folha, muito alva, | Que á nossa frente dá mais vida ao Tempo, | Pondo-o a galopar, qual Marialva | Em seu belo alazão, pelos campos fora | Como se a vida fosse já de outrora.

Tudo corre com tanta e louca pressa | Que muito nos parece ser o fim | De qualquer sublimada e vã promessa, | Feita só coração e frenesim.

Já não há muito tempo p’ra dizer | O que a alma sente, a cada instante, | Nem para se cantar o que é viver | Numa alegria doce e mui constante.

As belas expressões do pensamento | Morrem logo à nascença com’um ai. | Queda-se tão inerte o sentimento, | Que o Tempo, já sem tempo, se contrai | Deixando assim papel branco e lavado | E o sentir do pobre vate desesp’rado.

_ Ó Tempo, por que és tão ingrato e mau? | Deixa o Estro passar o Rio a vau!...

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Consequência de mudança de regime

Dizem as notícias que as forças policiais do Egipto se fecharam nas esquadras e que estão um tanto desorientadas sem saberem como actuar.

Depois de tantos anos a terem hegemonia, num regime repressivo em que a força e a imposição por meio de actos profundamente violentos eram o “pão-nosso de cada dia”, é perfeitamente natural e normal que assim seja.

Recordo-me, nitidamente, de, em Portugal, no 25 de Abril de 74, ter sucedido exactamente a mesma coisa. As organizações policiais – esteio do regime –, quando as Forças Armadas e o Povo venceram e acabaram com 48 anos de uma ditadura cruel e feroz, quedaram atordoadas, confusas e temerosas, sem atinarem com o que fazer e como o fazer.

Foi precisa quase uma semana para que as coisas se alterassem e os agentes fossem vistos, nas ruas, cumprindo suas funções, mas, mesmo assim, sem terem deixado de temer o povo, a tal ponto que assistiram, impávidos e inactuantes, aos ataques às sedes dos partidos no chamado “Verão Quente” de 1975.

O medo, ò Deus, também atinge os “valentões” quando foram o braço forte dos tiranos!....

sábado, fevereiro 12, 2011

UMA VITÓRIA OU?...

O ditador largou o “osso”, as forças armadas limparam a praça e o povo, cuidando-se vencedor, foi a sua vida cheio de contentamento e, certamente, na paz de Alah.

É sempre assim. Quando um povo julga que ganhou a “parada”, festeja-se e sonha-se. Sonha-se com dias melhores, num país novo ou reconstruído. E isso é bom, muito bom enquanto dura a euforia da vitória.

Depois… depois volta a luta pelo poder e começa o pesadelo. São as lutas políticas por um “lugar ao sol”, as invejas de quem perdeu, as prepotências dos vencedores e dos bem-instalados, eu sei lá mais o quê.

No caso do Egipto e sem mau agoiro uma pergunta fica no ar: será que as coisas ficam por aqui ou, dada a ebulição daquela zona do Mundo não poderá vir a transvazar para fora todas as convulsões que são fáceis de adivinhar, para um futuro muito próximo?

A Questão aqui fica. Quem viver verá!...

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Benditos sejam os Artistas

Dizia-se, não há muitos anos, que os poetas “andavam se4mpre com a cabeça nas nuvens”, querendo afirmar depreciativamente que esses seres sublimes de sensibilidade não viviam as coisas deste mundo do mesmo modo do geral das pessoas.

Eu que também faço versos seguindo os impulsos e os sentires de cada momento (e até já ganhei importantes prémios literários por esse facto), acho que tal pensamento não passa de um velho e doentio preconceito. È que o não ser materialista, como a maioria das pessoas, parece ser, num mundo todo feito de interesses e segundas intenções, motivo para ser rotulado de… “eu sei lá o quê”, mas bom é que não é, tenhamos disso plena consciência.

Num país (Portugal) em que começa a notar-se a falta dos poetas. Pululam para aí muitos rimadores, mas, para mal dos nossos pecados, Poetas não, e, por mor dessa falta, o materialismo toma tudo duma forma avassaladora. O que conta é o lucro, o ter, o resto não importa, porque não é de prazer imediato.

Faltam Poetas (dos autênticos) e, daí, morrem valores humanos que levam ao respeito e á dignificação do Homem na sua essência moral e espiritual que o torna sublimemente verdadeiro Homem.

Sem o canto e o sentir dos Artistas a nossa terra será um deserto de insensibilidade e desamor.

Viva a Poesia! Vivam os Poetas e todos os Artistas!

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Outra vez “O Tempo das cerejas”

Um “anónimo” comentou o artigo anterior dizendo o que a seguir transcrevo:

«Agora é possível, pois embora caras chegam do hemisfério Sul e encontram-se com facilidade nas grandes lojas de distribuição. Cerejas, melões e outras frutas...

Acabou-se a poesia!»

Pois é! No entanto, eu esclareci bem a questão, no citado artigo, ao dizer: mas esse não é, em Portugal, o tempo delas (das cerejas).

Quanto ao acabar da poesia há três notas a rectificar e a justificar o comentário do amigo anónimo.

1ª – Embora o escrito contenha algo (ou muito) de poético na forma estilística com que foi elaborado, trata-se, apenas e só, de um trabalho de análise política e social.

2ª – Como bem disse o poeta Padre David Maria Turoldo a propósito do “regresso dos monges para refundarem a Europa”: «Para compreender os tempos é preciso escutar os Poetas. Para saber o que padece o mundo é preciso interrogar os poetas.»

3ª – A Poesia é Imorredoira e, por isso, é eterna, hajam ou não cerejas mui rubras, aromáticas e doces.

A Poesia é a forma de tornar a pílula da política, mais tragável e é, creiam, a essência do meu viver, superando as dificuldades, as ansiedades e as rejeições – por preconceitos estúpido – dos que, ainda, não abriram a mente, o coração e… o espírito à beleza da Vida.

E pronto, por aqui me quedo!