sexta-feira, dezembro 19, 2008

Recordação de Natal IV

Com os meus dez anos eu já sabia que não0 era o Menino Jesus que trazia às crianças as prendas em cada Natal, mas fingia que não sabia.
Eu tinha-a visto na montra de uma papelaria da Rua Direita e fiquei apaixonado por ela. Custava vinte escudos - não era cara, porém, nem todas as bolsas teriam capacidade para ela. Mesmo assim, sempre aventei, a minha mãe a hipótese de poder vir a ser a prendo do Menino Jesus. Minha mãe foi-me dizendo que era um pouco cara, nesse ano, para as capacidades Menino das palhinhas do Presépio, pelo que tirei dali o sentido.
Na manhã de 25 de Dezembro, lá fui à chaminé a ver o que haveria para mim no sapatinho.
Ao abrir o embrulho, lã estava ela, muito vermelhinha de aparo amarelinho como ouro e, ao lado, num outro embrulho, um pequeno frasco com tinta azul, para que pudesse enchê-la.
Eu tinha uma "caneta de tinta permanente". Ia ser o rei da Escola. Ia ser tão importante como a Senhora Professora. Os meus colegas iam ter inveja de mim, porque só eu tinha uma caneta daquelas, tão bonita e tão funcional, pois não precisaria de estar constantemente a molhar o aparo no tinteiro da carteira, lá na Escola.
E fui muito feliz, muito feliz com tão pouco!...

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Recodação de Natal III

Natal de 1945.
Na Casa de Ferrocinto, a oito ou nove quilómetros de Viseu, consoamos eu, minha avó materna, minha mãe (meu pai continuava em Moçambique) e meu tio Augusto, ainda solteiro. Foi uma ceia igual à da maioria das pessoas, conversou-se, comeram-se as batatas cozidas com as couves e o bacalhau, mais as filhós, os frutos secos e os pinhões, estes de acordo com a quantidade ganha ao jogo do "rapa, tira, deixa e põe", e depois assistiu-se à Missa do Galo na Capela da Casa, com a presença da gente da aldeia e também da aldeia dos Paços, dali distante um quilómetro e meio.
Na manhã seguinte eu e minha mãe subimos a colina e fomos almoçar, ao Monte do Boi, com meu avô materno (estava separado de minha avó, por razões que não vêm ao caso) que, por ser um magnifico pasteleiro (era filho da recriadora dos célebres "pasteis de Vouzela" e de outras iguarias regionais), nos brindou com um belo almoço de Dia de Natal e, de sobremesa, além da aletria e das rabanadas, um soberbo e delicioso "pão de ló humido", como só ele sabia fazer e de que tenho muita saudade.
Ao cair da tarde, percorri mais dois quilómetros e picos e fui para Figueiró, onde jantei "roupa velha", confeccionada pelas minhas quatro tias (todas solteiras), em casa dos meus avós paternos, onde fiquei, pois minha mãe retornou ao velho Solar do Visconde de Ferro0cinto.
Não digo - a esta distância cronológica - que tenha sido um Natal feliz, mas foi um natal que caldeou, forma positiva, a minha personalidade de pessoa com deficiência e me tornou - creio-o - num homem sensível aos problemas e angústias do meu semelhante.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Recordação de Natal II

Alguém me tinha dito que o Menino Jesus só punha prendas se encontrasse o sapatinho muito limpo e bem cuidado. Vai daí, eu que tinha, então, os meus 4 ou 5 anitos, fui encontrado por minha mãe, na varanda da casa, em Lourenço Marques (agora Maputo), a lavar, cuidadosamente, os meus sapatos no tanque da lavagem da roupa, pois não queria ficar sem as prendinhas de Natal, por falta de higiene no calçado.
Minha mãe, que, muito mais tarde, me contou a peripécia rindo às gargalhadas, disse que os meus lindos sapatinhos brancos de pelica, ficaram, depois de secos, como seria previsível, impróprios para uso.
Claro que para junto do fogão foram outros, se calhar mais velhos e, por certo, menos limpos, mas, como também era perfeitamente previsível, não foi por isso que, na manhã do dia 25 de Dezembro, deixei de encontrar, junto deles, um grande embrulho contendo um lindo triciclo vermelho que me encheu de alegria transbordante.
São assim os miúdos! E è por isso que o Mundo ainda vale a pena... ou não?!...

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Recordação de Natal I

Último Natal da II Grande Guerra Mundial (1944). Noite de Consoada. À tarde, o comandante do navio ordenara a todos os passageiros para se equiparem com os respectivos coletes salva vidas e se reunissem nos salões de estar das duas classes da embarcação, jà que o mar se revoltara e se previa uma noite bastante agitada. Pelas vigias, nós bem viamos as vagas varrerem, de ponta a ponta o convés do "velho" Mouzinho de Albuquerque, que fazia a derradeira viagem da sua vida, ligando Moçambique a Lisboa.
Com o barco a bailar fortemente ao sabor das ondas e com os estômagos em revolta absoluta, não houve festa comemorativa do nascimento do Menino Jesus e não houve entrega de prendas às crianças que vinham a bordo (eu ia completar daí a um mês e poucos dias os meus oito anos). Passamos a noite no salão, cada qual dormitando a seu jeito até que, ao nascer do Sol, lá para os lados de Madasgacar, o "baile" do navio parou e os altifalantes anunciaram a bonança, libertando os passageiros para virem até ao convés.
O Sol radioso e quente raiava no alto do Céu, o mar era um lago. mas estavamos à deriva, sem força nos hélices, pois as caldeiras de vapor haviam rebentado. E assim estivemos até ao meio dia, quando che garam doi rebocadores que nos levaram depois para a Cidade do Cabo da Boa Esperança, onde nos quedamos uma semana em reparações e onde, finalmente, ainda que com atrraso, consoamos e tivemos as prendas desejadas pelas crianças.
Mais vale tarde do que nunca!...

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Ainda Que Natal?...

A bloguista "Pandora», a propósito do meu artigo anterior, disse, em seu gentil gentil de estar atenta ao vou botando neste meu humilde cantinho, com certa tristeza, mas com a doçura de seu modo terno de criar graciosos bonecos de trapos:
«Por outro lado temos o banco alimentar contra a fome que este ano tem sido o maior. As pessoas são generosas a dar para quem não tem.
É o sinal dos tempos, estes tempos que cada vez há mais pobres a comer na rua, e sem casa. Outros sem emprego...
Pelo mundo fora só se vê desgraças e até no país onde Jesus nasceu ninguém se entende.
Sim , já gostei do Natal e muito, mas quando tomei consciencia da realidade... anseio sempre pelo dia 26 e preparo-me para o fim de Ano. Aí sim faço festa da grande (em casa que a vida não está para gastos), para entrar sempre com o pé direito e desejar sorte para todo o mundo. Quem sabe se um dia conseguimos.»
Como eu referi no texto anterior, tal só sucederá - segundo as "velhas" profecias, depois de 2026, quando eu já cá não andar - pois só depois dessa data, «a besta será amarrada por mil anos e haverá um novo Céu e uma nova Terra.»
Quanto ao Natal, eu continuo a comer as batatas, o bacalhau e as couves, com aqueles que me amam. Porque o "Menino Jesus" não tem culpa de que os homens tenham esvaziado os seus corações do Amor que Ele nos legou, para o encherem de ganância e... ódio, por isso continuo a venerá-lo, na noite em que (convencionalmente) veio ao Mundo E... mais não digo!...