sábado, maio 31, 2008

Docência nos nossos dias

Atraem-me (sempre me atraíram) os temas de carácter científico, apesar de na matemática não ter sido um bom aluno o que é fundamental, pois as coisas da ciência implicam, de certa forma, o uso dessa disciplina e a sua aplicação prática. É verdade, no entanto, que fui bom discípulo dos professores de física, ciências da Natureza, e outras ligadas às coisas do foro científico. E fui tão bom ou tão mau que – lembro, com certa mágoa – um dia, frequentava eu o equivalente ao actual quinto ano da Ensino Básico, uma “velha” professora me deu uma valente bofetada por ter afirmado que, para além dos oito planetas do Sistema Solar (então ainda eram oito), havia muitos outros espalhados pelo Universo, facto que, cada dia, se confirma e reconfirma.

Quero com isto dizer que o ensino, nesses tempos de má memória, era tão rígido e dogmático (só valia a opinião do mestre e dos compêndios) que impossibilitava o discente de ter ideias e, sequer, de as exprimir. Era, forçosamente, o saber conseguido à custa do “empinanço” e não do raciocínio resultante da análise dos dados obtidos pela leitura, pela constatação de factos e acontecimentos vistos e vividos no quotidiano ou por qualquer outra forma de investigação.

Então, acontecia que muitos desses professores (também eles feitos à força de muito “marrar” e muito “empinar” matérias sob o jugo férreo da ditadura que também queria subjugar as inteligências, não estavam preparados para confrontarem mentes atrevidas, em seus objectivos e modos de pensar.

Em face disto, a questão que surge torna-se pertinente e cheia de pontos de reflexão: E hoje, século XXI, será que os docentes deste país estão aptos e capazes de enfrentar e preparar gerações mentalmente mais abertas e, assim, bem mais reivindicativas? Não será necessário produzir um novo tipo de professores? Não será ainda o Ensino, em si, que tem de mudar? Neste último caso, de que forma, com quem e com que meios?

Quem for de direito que responda, pois eu não sou ninguém nem no Ser, nem no Estar!...

quinta-feira, maio 29, 2008

Conhecimento e Culura

Quando era menino, minha avó materna – senhora aristocrata no saber e na vivência –, ensinou-me que «há diferença entre o conhecimento e a cultura. Podemos ter muitos conhecimentos e, no entanto, não sermos cultos, mas o inverso também é viável.»

No primeiro caso, usemos por exemplo, um economista que se fartou de “queimar as pestanas” para obter o “canudo”. Ele sabe muito de estratégias financeiras e de gestão empresarial, mas, infelizmente (ele há disso), é insensível à beleza terna da pintura de Boticelli ou à força da escultura de Rodin. O que quer dizer, evidentemente, que esse indivíduo, em matéria de cultura, não passa de um coxo.

Por seu turno, já um analfabeto, como minha avó paterna, pode sentir e viver com imenso gosto a expressão (estilizada pelo modernismo) de uma tela de Miro e não saber como se escreve a palavra amor, porque não aprendeu a juntar e a desenhar as letras, mas ela – afirmo com muito carinho, admiração e saudade – sabia, com emoção, o sentido dessas quatro letras. Era, à sua maneira, uma senhora sensível e culta, muito culta.

Vem isto a propósito de um concurso da R.T.P. em que se confunde cultura e conhecimento com (algumas vezes) bisbilhotice balofa de tertúlia cor-de-rosa. Exemplo: a actriz Fulana é filha do violoncelista X e da pintora …? E vêm as quatro possíveis respostas que não interessam nem sequer ao Menino Jesus de tão fofoqueiras que elas são.

E por que não?: O Infante D. Fernando (cognominado de Infante Santo) era filho de D. João I e de... A – Maria Brites; B – Deuladeu Martins; C – Filipa de Vilhena; D – Filipa de Lencastre? Sendo que a resposta certa é a D.

A primeira proposta, lamentavelmente, não é conhecimento, nem cultura. Quanto à proposta seguinte é, verdadeiramente, as duas coisas.

Não entendo como há quem concorra a este tipo de testes públicos de saber se, depois, erram em questões (deveras) elementares que qualquer «miúdo de 10 anos» responderia correctamente sem pestanejar…

E queremos nós evoluir e superar as crises se, numa maioria confrangedora, somos tão desconhecedores e incultos!...

terça-feira, maio 27, 2008

Tuberculose presente e preocupante

Lembro-me, muitíssimo bem, de, era eu um menino acabado de chegar de África (1945), onde nasci, haver, no Caramulo – onde não se devia ir por causa do contágio –, mais de meia dúzia de Sanatórios de grande lotação para doentes vítima de tuberculose.

Era um flagelo que – dizia a propaganda do “Estado Novo” – afligia seriamente os governantes da altura. Não sei se era ou não verdade, mas sei, entretanto, que, como forma de obviar o problema, se construíram, por esse Portugal adiante muitos sanatórios da especialidade, os quais, infelizmente, não eram bastantes, pois a doença não parava de aumentar nas estatísticas oficiais e privadas.

E essa endemia só começou a diminuir por volta dos anos 60, graças ao uso de novos fármacos e, de certo modo, à emigração de milhares (se não de milhões) de portugueses para a França, Alemanha, Suiça e não sei mais que outros países, onde, mormente as condições duríssimas de vida, sempre conseguiam ganhar para a “bucha”, o que, por cá, dada a extrema pobreza em que a maioria das pessoas viviam, não era viável.

Os cofres do Banco de Portugal abarrotavam com barras de ouro, mas, desgraçadamente, morria-se de fome e de tuberculose, consequência desse mesmo estado de fome e penúria generalizada.

Recordo esse período vergonhoso da nossa história recente, porque, lamentável e dramaticamente, “para mal dos nossos pecados”, está, de novo, a ser preocupante o ressurgir da tuberculose, pelo elevado números de casos, que vêm atingindo os cidadãos deste país. E aqui a comparação tem todo o cabimento: nesse tempo era o desemprego e a míngua no poder de compra a causa da endemia, hoje são os mesmíssimos factores os responsáveis por tal ressurgimento.

E o comportamento dos responsáveis (talvez governantes, não sei?) não está a ser muito parecido ao desses tristes tempos? Não há desemprego? Não há miséria? Não há desespero? Não há, desgraçadamente, necessidade de ir por aí além, em busca de pão e de melhores condições de vida?

As respostas são tão evidentes que nem as devo dar. Quem tiver olhos que veja!...

sábado, maio 24, 2008

Que ninguém se entregue à depressão!

Ás vezes, invade-nos uma apatia enervante e, parece, sem sentido. A qual provoca a ilusão doentia de entrarmos em preguiça e sermos invadidos por um mórbido sentimento de inutilidade. – Não incapacidade de pensamento e raciocínio, que, esses, estão e ficam bem despertos a acusar-nos, implacavelmente, como cilícios aferroando-nos a carne numa tortura mental que (quase) nos aniquila e deprime.

É uma espécie de “virar de costas” ao que nos rodeia, porque nos acabrunha e dói. É – digamos, sem vergonha – querer fugir à realidade deste mundo louco, cruel e oco de valores morais, sociais e humanos, em que ainda vivemos. É o “deixar cair os braços” no meio da luta que, dia a dia, travamos numa irisada e vaga intenção de mudar as coisas e as acções dos homens, que teimam em manter-se cegos e surdos para a salvação dos seus princípios e para a salvaguarda deste pobre e tão maltratado Planeta em que fomos paridos e que, inexoravelmente, teremos de legar aos vindouros que, queiramos ou não, nos hão-de julgar de acordo com o nosso procedimento.

Cobrir a cabeça no meio de cobertores, tentando escapar à luta da sobrevivência, não vale de nada, nem é, de modo algum, solução para o(s) problema(s) que nos afecta(m)! Isso é, pura e simplesmente, cobardia!!!... Há sim, que gritar, que estrebuchar, que fazer um grande ruído para que, quem de direito, nos ouça e faça algo importante pela mudança de tudo, porque tudo precisa de ser mudado!

quarta-feira, maio 21, 2008

Religião é intimismo

O respeito pela crença dos outros leva-me, naturalmente, a ficar calado para não ofender os princípios de quem tem a sua convicção, a qual, algumas vezes, colide com a minha forma de pensar.

Havia – e continua a haver) quando tinha que contactar directamente com pessoas – três coisas que eu nunca perguntava que eram: as tendências religiosas, políticas e sexuais de cada um. Pois considero que essas coisas são do foro particular e, por isso, só ao próprio dizem respeito e ninguém tem nada a meter-se na vida recôndita do seu semelhante. No entanto, sou – como já disse anteriormente – contra tudo o que seja fanatismo/fundamentalismo.

Seguindo essa linha de pensamento (embora respeitando quem mos envia) devo dizer que fico triste (e chocado) quando recebo, por correio normal ou electrónico, mensagens com orações para que as reenvie (em cadeia) para umas tantas pessoas (o que nunca faço), sob a promessa/garantia de que se o fizer terei acesso a umas tantas graças divinas, mas se proceder inversamente (afirmam tais mensagens) serei vítima de umas tantas desgraças.

Sou contra – repito – porque a Fé não é nada disso, nem tem nada a ver com isso. A Fé é (deve ser) muito privada, muito nossa, pois deve ser fruto da nossa inteligência e, também, do nosso coração, onde, em concomitância, gera emoções e sentimentos individuais (quase sempre invisíveis) e intransmissíveis.

Desse modo, essas mensagens perdem todo o mérito por se tornarem fogo de artifício em noite de romaria. Assim sendo, tais manifestações (ditas) de religião (contacto com a Transcendência Superior que é tudo e está em todos) podem ser aquilo que quiserem, mas Fé é que, efectivamente, não são.

Haja recato e seriedade no que concerne à puridade de cada pessoa! As manifestações Divinas são resultado da oração (mesmo colectiva) de uma Fé, recatadamente, discreta e não de barulhentos e exibicionistas altifalantes ou de coloridas flâmulas pendentes de altos mastros.