quarta-feira, setembro 12, 2007

É vendetta ou brincadeira?

D. Filipa de Lencastre foi a mãe do mais famoso e sublime grupo de Infantes que Portugal teve. Os filhos desta senhora inglesa foram de tal gabarito intelectual e humano que Camões lhe chamou de «ínclita geração, altos infantes.»

Talvez por isso, trouxe-nos – a nós portugueses –, ao longo da História, alguns dissabores, pois se gerou, na ancestral memória colectiva dos ingleses, uma certa e indisfarçável, inveja que os leva a, sempre que a oportunidade surge, desenvolverem contra nós um bem definido sentimento de vendetta siciliana.

Foi assim logo após os descobrimentos, quando ingleses e holandeses, aproveitando a fraqueza da presença dos Filipes, no nosso trono, nos espoliaram de bastante património na Índia e em África:

Depois foi durante as invasões francesas em que a razia ao que era nosso, muito especial e definidamente, ao prestígio angariado ao longo dos séculos, sob o pretexto de que nos estavam a ajudar, foi de doer o coração e a alma.

De seguida foi a questão do “Mapa Cor-de-rosa” em que os súbditos da “velha Albion” fizeram de nós «gato sapato», numa humilhação sem nome, nem precedentes.

E… agora é o caso dos Mccanne em que os britânicos ousam e usam tudo para apoucar o trabalho – creio que infatigável e honesto – das nossas polícias.

Somos pobrezinhos, muito parcos de meios é certo, mas não somos parvos, Santo Deus!...

segunda-feira, setembro 10, 2007

Quem não é arrogante?

Muitas vezes me pergunto se a arrogância é, de facto, uma constante nata na postura convivêncial do ser humano. E isto porque vejo arrogância em tantas pessoas e em tantos momentos que, acho eu, deveriam ser de tranquila humildade que fico a pensar: será que tenho andado distraído e nem me apercebi da existência e prevalência desse defeito, ou será que estamos a atravessar uma época propícia a tão nefasto sentimento?

Não! Não é um fenómeno actual. A História de Portugal está cheia de personagens carregadas de arrogância, começando pelo nosso primeiro rei que, sendo um rude cavaleiro que assinava de cruz, arrogantemente, teve a falta de humildade de, como seria de esperar, respeitar a que – dizem – era sua mãe, acabando nos dias de hoje em que não sou capaz de topar um só político com um pingo de humildade no falar e no agir.

Eu próprio também sou arrogante e tanto o sou que estou a julgar-me maior que todos dizendo estas coisas. Quem não tem, num dado instante, a tentação da arrogância? Quem é, completamente, imune a tal sentimento?

Respondo simplesmente: todo o ser humano tem, em si, uma pontinha de arrogância que, em momentos incontrolados, deixa vir ao de cima e deixa que flua ao sabor da excitação do discurso.

«…Humanum est!»

sexta-feira, setembro 07, 2007

Travessia do deserto

Se alguém “fez a travessia do deserto”, no sentido metafórico da expressão, é porque retornou de um qualquer período em que, protagonisticamente, se apagou, aos olhos do mundo, e esteve envolvido em profunda introspecção pessoal.

Também se usa essa mesma expressão quando alguém se ausenta e, portanto, durante algum tempo não é visto, nos locais habituais à sua presença.

No entanto, nesses espaços temporais, não deixa de haver uma ou outra pessoa que dê por essa ausência e faça uma grande festa quando volta a dar de ventas com o nómada que “fez a travessia do deserto”.

A mim tem-me sucedido isso. Das vezes que tenho estado fora da minha cidade, ou que me não vêem um pouco mais delongadamente, ao reencontrarem-me, mimam-me com expressões reveladoras do quanto me estimam. Estou, é claro, a falar dos verdadeiros amigos, pois aos outros «tanto se lhes faz como se lhes fez.»

Ser amigo, afinal, é isso mesmo: ser lembrado e desejado durante as ausências.

Quantas amizades dessas existem nos dias que correm?...

quarta-feira, setembro 05, 2007

Por enquanto...

“Por enquanto…” é a frase que tudo adia e tudo atrasa, até o progresso técnico e social.

Talvez por causa disso, estamos a sofrer, angustiosamente, no Planeta, os grandes males da desertificação de vastas áreas, de degelo de glaciares com milhares (se não, milhões) de anos, de fenómenos meteorológicos fora de época, etc., etc., etc.

Por enquanto não, porque… e lá vem, a mais das vezes, uma desculpa esfarrapada. E tudo segue imutável no ram-ram duma rotina mórbida e doentia.

Pára-se no tempo. Acomodam-se vontades e… não se evolui. É um ciclo vicioso a que, há muito, deveríamos ter fugido.

Continuamos a consumir combustíveis fósseis e só muito timidamente aventamos a hipótese das energias alternativas. E, ainda assim, destas, fala-se no hidrogénio sabendo-se que a proveniência deste gás é duvidosa, já que não se trata de fonte inesgotável, além de ser matéria fundamental para a existência de vida.

Ponha-se o “por enquanto… porque” de lado!

É preciso, é urgente tomar iniciativas capazes de nos arrancar dos permanentes e perniciosos adiamentos!

O tempo é de dor, mas também tem de ser de luta e, por isso, há que ser corajoso no incentivar e no executar!

segunda-feira, setembro 03, 2007

Considerações

A semana passada, um poeta popular da minha cidade encontrou-me na rua e deu-me três folhas de papel A4, onde estavam escritos uns pequenos poemas.

No primeiro falava, em três bonitas quadras, da esperança que põe no embelezamento do “velho” Rio Pavio, no fim das obras que estão a decorrer.

No segundo referia uma tertúlia de pessoas idosas, num café do seu bairro, chamando-lhe o “Cantinho dos sábios”.

No último (quase ingenuamente), referia um facto bem real, quando são ultrapassados os oitenta, a fome de afecto, de com quem partilhar confidências e ideias e… de sexo.

Isto tudo pode parecer sem nexo e vazio de interesse, mas não é nada assim. E, se não, analisemos:

Para quem já usufruiu o rio límpido, com barcos e peixes, e o viu, depois, poluído e fétido, poder tornar a vê-lo airoso e belo é uma dádiva divina. Valeu a pena ter vivido tanto para ver a realização de um sonho julgado inacessível.

Os “velhos”, nas sociedades ocidentais, são o fardo pesado que urge descartar. O seu «saber de experiência feito» não merece qualquer atenção, já que as suas ideias, os seus valores e as suas competências não são úteis nos dias que correm. Que disparate e que loucura de desperdício!...

Quanto ao terceiro ponto, ou seja: a fome de afecto, de partilha e de (tenhamos – como o poeta em referência – coragem de o dizer) sexo, mais não são do que o resultado do que disse no anterior parágrafo. E isso tem nome e é o maior flagelo de muita gente que (ainda) vive: Solidão!