segunda-feira, setembro 03, 2007

Considerações

A semana passada, um poeta popular da minha cidade encontrou-me na rua e deu-me três folhas de papel A4, onde estavam escritos uns pequenos poemas.

No primeiro falava, em três bonitas quadras, da esperança que põe no embelezamento do “velho” Rio Pavio, no fim das obras que estão a decorrer.

No segundo referia uma tertúlia de pessoas idosas, num café do seu bairro, chamando-lhe o “Cantinho dos sábios”.

No último (quase ingenuamente), referia um facto bem real, quando são ultrapassados os oitenta, a fome de afecto, de com quem partilhar confidências e ideias e… de sexo.

Isto tudo pode parecer sem nexo e vazio de interesse, mas não é nada assim. E, se não, analisemos:

Para quem já usufruiu o rio límpido, com barcos e peixes, e o viu, depois, poluído e fétido, poder tornar a vê-lo airoso e belo é uma dádiva divina. Valeu a pena ter vivido tanto para ver a realização de um sonho julgado inacessível.

Os “velhos”, nas sociedades ocidentais, são o fardo pesado que urge descartar. O seu «saber de experiência feito» não merece qualquer atenção, já que as suas ideias, os seus valores e as suas competências não são úteis nos dias que correm. Que disparate e que loucura de desperdício!...

Quanto ao terceiro ponto, ou seja: a fome de afecto, de partilha e de (tenhamos – como o poeta em referência – coragem de o dizer) sexo, mais não são do que o resultado do que disse no anterior parágrafo. E isso tem nome e é o maior flagelo de muita gente que (ainda) vive: Solidão!

sexta-feira, agosto 31, 2007

Fado não é a minha canção

Os portugueses dizem que o Fado é a Canção Nacional, tal como o Tango será a da Argentina, no que não estou, nem posso estar de acordo.

Alguém cheio de nostalgia e de uma certa depressão causada pela saudade, pode ter ânimo para realizar seja o que seja?

Por mim e pelo que dizem os compêndios, é bem claro que não!

Então como foi possível um povo deprimido – segundo as letras e a música do fado – «dar novos mundos ao Mundo»?

É um contra-senso de tal modo paradoxal que custa mesmo muito a aceitar, é como sermos condenados a tomar cicuta.

Em que ficamos?!

Somos um povo de heróis ou somos uma Nação de «vencidos da Vida» a chorarem mágoas suas e de seus passados?

Que raio, eu não quero ser assim!!!

Prefiro a alegria de um Corridinho, de um Vira e de uma Chula!...

segunda-feira, agosto 27, 2007

Justificações

O Amor e Deus, não se explicam, sentem-se!

Para quê cansarmo-nos em busca de justificações filosóficas, científicas e outras para aquilo que não temos forma de justificar?

O amor e Deus só existem se nós os sentirmos no nosso espírito e no nosso coração. Se assim for eles são e estão. De contrário, nada há para buscar. Certezas, ninguém tem para afirmar ou infirmar seja o que for sobre isso. O homem, em tais matérias, é, por demais, falível e bronco.

Por isso, só o sentimento existe e tem força. Tudo o resto é retórica balofa, é tese de teólogo de vão de escada, sem verdade, nem valor!

E, tenhamos disso consciência, não é preciso esfolar os joelhos na pedra rija dos templos para termos Deus dentro de nós; nem, muito menos, armados em românticos Casanova, gastarmos, por dá cá aquela palha, nosso talento em teatrais exibições de afecto, para entregarmos e recebermos amor.

Esses sentimentos, se os sentimos, só por si, dão os seus frutos, não precisam de sinais exteriores, nem de longas e exaustivas teses justificativas para que existam.

Cremos porque cremos. Amamos porque amamos. Tudo o resto vem, naturalmente, por acréscimo!...

sábado, agosto 25, 2007

Dignidade

Dizia, muito bem, Michael J. Fox – in Saving Milly, em citação de Morton Kondrake (Public Affair) que «a dignidade de um indivíduo pode ser atacada, vandalizada, espezinhada, cruelmente ridicularizada, todavia não pode ser-lhe roubada, a não ser que a ela renuncie.»

E a questão principal, digo mesmo, fundamental está na renúncia. Há, algumas vezes, factos ou motivos que levam a que o indivíduo, em desespero de causa, como soa dizer-se, acaba, triste e lamentavelmente, por quebrar os marcos morais em que foi educado e o norteiam e perde, num repente, todo o sentido da salvaguarda da sua dignidade.

Uma pessoa com fome e sem meios para se sustentar, por certo, mesmo hesitando muito, é capaz de roubar; um pai ou mãe, para defender a sua cria, é capaz de matar um seu semelhante; etc., etc., etc., os casos a citar poderiam ser tantos, tantos…

.A dignidade é um bem precioso que deve ser guardado em cofre “fechado a sete chaves”, para que não corra o risco de se perder e, por assalto inesperado com gazua ou pé-de-cabra, nos ser, ainda que aparentemente, retirada.

Penso (posso estar errado) que ninguém deixa, por gosto, violar o selo, mas, somente, porque a tal o forçam as circunstâncias de um dado momento.

Quando assim sucede, a dor é incomensurável, é certo! Não é, porém, irremediável, pois existe sempre a possibilidade de se “emendar a mão” e recuperar o perdido.

É – como disse Cristo a propósito do pecado, «setenta vezes sete vezes» – possível recuperar aquilo a que, momentaneamente, num desespero ou numa loucura, se renunciou. Tenha-se para tal, a necessária vontade e coragem!

sexta-feira, agosto 24, 2007

Caridade

O Apóstolo Paulo fala, nas suas cartas, de caridade. E diz, quase como o Dalai Lama, que caridade é sentir compaixão pelo nosso próximo e, de todas as formas, procurar minimizar-lhe o sofrimento seja ele qual for.

Pois é!... Só que há quem pense – em nossos dias e também houve no passado – que caridade é dar esmolinha aos que a pedem e… pronto, está cumprida a obrigação de solidariedade que cabe a cada um!

Bela maneira de descartar responsabilidades e, por outras palavras, de «sacudir a água do capote»!

Os (maus) governantes do Mundo ainda cuidam que com indemnizações ficam sanados os estragos físicos e morais causados pelas guerras por eles ateadas. Esquecem-se (os pobres loucos) que, para a dor das perdas de pessoas e de valores que norteavam ou norteiam as vítimas, não existe indemnização com força para repor a normalidade.

E os afectos perdidos, quem e como se compensam? E as humilhações sofridas, quem e como se aliviam?

Esquecem-se esses péssimos mandadores que a melhor e maior compensação para tais males, era ter sabido resolver as coisas sem nunca recorrerem à violência da guerra.

A violência – digo eu – mata todo o conceito de caridade, que o mesmo é dizer, de Amor! Quem ama não guerreia, entende e entende-se com os outros, na verdade e na paz!