terça-feira, agosto 21, 2007

Que fizemos em 500 anos?

Ao olhar para a pobreza vigente nas ex-colónias portuguesas, invade-me uma imensa tristeza. Dói-me ver um chão úbere, um subsolo riquíssimo e um povo ávido de conhecimento e generoso na sua entrega à luta pela subsistência, tacteando na procura de uma saída para a desgraçada miséria em que ficaram após a retirada dos colonizadores.

Nós (portugueses) que – segundo Camões e, mais recentemente, Agostinho da Silva – «demos novos Mundos ao Mundo», em quinhentos anos de subjugação, não fomos capazes (ou não nos convinha) de ensinar aquela gente a pescar em vez de lhe mostrar o peixe que não pousava nunca nas escudelas, para que aconchegassem seus esvaziados estômagos.

«Heróis do mar, nação valente...» Qual quê? Qual carapuça!...

Nação falhada. Falhada, sim, nas colónias e falhada no seu próprio território, onde, triste e lamentavelmente, vivemos – rectifico –, sobrevivemos na cauda de uma Europa, ainda que doente, com bem melhores condições do que aquelas que, por cá, temos.

Será que não temos cérebros de qualidade? Claro que os temos, mas, porque a mediocridade é maioritária, têm de buscar o sucesso no exterior, onde a inveja os não acabrunhe e destrua.

Que mais dizer?...

sábado, agosto 18, 2007

Filho és, Pai serás, como fizeres assim acharás!

Contava um livro da minha Instrução Primária que um filho carregou seu velho pai e o levou à Serra, para que morresse sem afectar a família.

Depois de o ter pousado e acomodado, o filho entregou um cobertor ao velho para que a sua morte, na solidão, fosse mais aconchegada.

Ao receber a oferta o pai tirou dum bolso uma navalha que toda a vida o acompanhara e cortando o cobertor ao meio, entregou uma das metades ao filho, dizendo:

– «Toma, isto é para quando o teu filho te vier trazer a Serra, se não for tão bom como tu, tenhas um pouco de agasalho ao morreres.»

Nossos pais e nossos sogros tiveram a gloriosa dádiva de morrerem, tranquila e aconchegadamente, no seio da família que os amava.

E nós, os velhos de hoje e de amanhã – muito provavelmente internados num Lar de Idosos –, será que, ao menos, vamos ter metade de um cobertor que nos dê um pouco de conforto moral e agasalho físico?...

Que tempo e que vida estamos a construir e a viver!...

sexta-feira, agosto 17, 2007

Considerações avulsas

A passagem de uma pessoa, seja ela quem for, por este planeta é feita de uma sucessão rítmica de momentos altos e de outros de menor elevação.

Esse virar constante de página no livro em que se apontam os passos bons e maus de cada indivíduo, tem nome, chama-se Vida. E só o facto de vivermos é já, em si, um verdadeiro acto heróico. Pois nos obriga, desde criança, a um enorme esforço de atenção e observação para que não nos precipitemos nos abismos que, a cada instante, se nos apresentam.

Contudo a ganância do Ter e do Ser, qual monstro sempre de goela aberta para nos devorar, faz-nos baixar a guarda e, sem nos apercebermos, quando menos esperamos estamos tombados no lodo da destruição e ou da descrença própria e alheia.

Ninguém é imune e impune a tal desgraça, porque ela é regida por uma lei cega e insensível a que não se escapa se nos tivermos deixado cair, consciente ou inadvertidamente, nela.

Os que exercem a política são, naturalmente, quem fica e está mais exposto às permanentes preia-mares e baixa-mares da existência humana.

Dirão que é o destino.

Sem pretender querer contradizer quem crê nisso, direi, todavia, que o Destino, tal como Deus, está em nós e somos nós que temos o dever de o amar e de o construir segundo a segundo, com persistência, mas, sobretudo, com alegria e sempre, sempre tendo em vista o nosso bem, já que só assim seremos capazes de, como preconizou Buda e, também, Cristo «amar e ajudar o próximo» e, desse modo, simples e sublime, sermos, autenticamente, servidores, úteis e conscientes, da polis

quarta-feira, agosto 15, 2007

Feira de S. Mateus de Viseu

Quando era menino sonhava com ela, pela magia da garridice das cores e pela descoberta de coisas novas. Quando era rapazote e andava a estudar ansiava por ela, para ganhar uns escudos a desenhar e a orientar a decoração de alguns stands. Depois; já casado, tornei a ganhar algumas notitas de mil a desenhar e a pintar cartazes, anunciando os eventos diários que nela aconteciam, os quais eram colocados em pleno Rossio. Chegou a Revolução dos Cravos e fui trabalhar nela como membro executivo da sua Comissão Organizadora.

Agora estou velho e como já não presto, a ancestral Feira de S. Mateus de Viseu, a decorrer até 21 de Setembro, esqueceu-me e eu ando a ver se também arranjo coragem para a olvidar, o que não consigo, pois ela está-me nas veias e na alma.

Há coisas que, por mais que façamos, nos ficam a marcar a existência.

Será bom? Será mau? Não sei! Mas sei que são coisas muito nossas que nos marcam e se perpetuam, pelo menos enquanto gozarmos, em plenitude, do uso da razão.

domingo, agosto 12, 2007

Julgar e... Julgar

Dizia-me, há dias, um ilustre jurista que, muitíssimas vezes, os juízes, se viam forçados (é o termo) a ter de condenar, mesmo sabendo que a pessoa está, deveras inocente e é, verdadeiramente, incapaz de cometer seja que falta seja. Mas condena porque todas as provas documentais, os depoimentos das testemunhas, as alegações dos advogados e a própria lei assim o determinam.

Esta forma de actuação mostra que, nos nossos dias, já não há Juízes com a coragem e a argumentação de um Juiz de Barrelas («o tal das meias amarelas») que, contra todas as provas testemunhais e alegações, condenou um réu, acusado de ter assassinado um homem, a ser enforcado. Todavia, acrescentou ao veredicto, que «tal execução só se cumpriria dali a 100 anos, ficando o réu, até lá, em liberdade e com todo o direito de fazer, plenamente, a sua vida como qualquer outro cidadão.»

Que mundo é este, Santo Deus!...