sexta-feira, março 02, 2007

Presente angustiado - Futuro de esperança

As pessoas não sabem o que querem ou antes querem «o Sol na eira e a chuva no nabal!» E, se assim não sucede, fazem birras, quais crianças em loja de brinquedos quando os pais lhes não dão o que desejam.

Porém, o pior deste panorama é que gente com responsabilidade, lamentavelmente, procede de igual modo. São os que por faltam de verbas esperneiam; os que por perderem a base de apoio abrem as válvulas de uma verborreia inconsistente; os que, julgando-se ofendidos, se põem a ameaçar com processos judiciais e são, finalmente, os que, por ninguém lhes ligar nenhuma, viram tamborileiros de rua fazendo um barulho de mil diabos para que escutem as suas aleivosias.

Nada disto me surpreende, pois, pouco a pouco, fui-me habituando ao constante virar de página em cada dia que passa. Todavia preocupo-me, seriamente, porque sinto que em vez de progredirmos, como seria normal, estamos a regredir e, a continuarem as coisas neste pé, corremos o risco da destruição do sonho dos capitães de Abril.

Se não fosse ter consciência do que dizem as profecias, estaria, por certo, a entrar em pânico e a arrancar todos os cabelos da cabeça. Mas não! Vamos ter de sofrer e muito, para, depois, podermos gozar (eu já não!) as delícias, conseguidas pela mediação de «um descendente filipino, do ocidente da Ibéria, que mudará o mundo para melhor, alcançando a paz.» ( Nostradamus)

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

O sonho e a velhice

Á medida que o homem vai “envelhecendo” – talvez seja mais apropriado dizer: amadurecendo – vai aumentando a sua sabedoria e serenidade, afirma-se com muita frequência. E há mesmo quem diga que isso se deve ao facto de, com a passagem do tempo, as pessoas “assentarem os pés no chão” deixando, de certa forma, de sonhar.

Confesso que tenho muita relutância em aceitar este último pensamento, pois acho que a sabedoria e a serenidade são fruto da concretização (ou não) de muitas coisas que só existem ou existiram porque houve, primeiramente, o sonho e, daí, o desejo de o tornar realidade.

Minha mãe – pessoa muito pragmática e… muito materialista – costumava dizer, referindo-se a mim: «tenham cuidado com ele, porque anda sempre com a cabeça nas nuvens!» Queria com isso dizer que eu era (e sou) um inveterado sonhador, o que, para ela, era um enorme defeito.

Todavia foi graças a esse “defeito”, acertando e errando imensas vezes, que fui aprendendo e evoluindo até chegar ao que sou: um velho com sabedoria e serenidade, muito embora seja, bastas vezes, assaltado por medos de incapacidade para estar e de vir a sentir, na pele e na alma, os efeitos da solidão com todo o seu vasto e pernicioso quadro de malefícios físicos e espirituais.

Mas, apesar disso, continuo a sonhar, pois, enquanto assim for, sei que estou vivo e que sou eu.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Um museu

Hoje, ao abrir a minha caixa de correio electrónico, deparei com o pedido de uma amiga, directora de um jornal regional, solicitando-me uma resposta para a pergunta: «acha que deve ser feito, em Santa Comba Dão, o Museu Salazar? Ao que respondi, simplesmente: Um Museu, sim. Mas jamais um museu com o nome e que exalte a sua figura. Um museu, sim, mas para mostrar, às gerações do pós 25 de Abril de 1974, o que foi a ditadura fascista e o quanto sofreu o povo português durante esse triste período da nossa história recente. Um museu, sim, mas não para enaltecer um homem cuja marca no passado foi repressivamente de coacção de direitos e liberdades essenciais do ser humano em Portugal. Culto dessa nefanda personalidade por quê e para quê? Será que não nos bastaram 48 anos dessa triste divinização?

Eu sei bem do que falo, pois vivi e senti na pele as consequências dum regime cruel.

Depois de ter frequentado o 1º e 2º (agora 5º e 6º) ano do (então) Curso dos Liceus no ensino particular (Escola Académica de Viseu) frequentei o Curso Geral de Comércio, na (velha) Escola Industrial e Comercial de Viseu, (hoje Secundária Emídio Navarro) como “ouvinte”, pois o então director, Dr. Carlos Damião Franco – fascista de muitos costados e “adorador do Deus Salazar” – me não deixou ir a exames sob a afirmação (falsa) de que era muito lento na prestação das provas escritas. – Triste e esfarrapada desculpa para mascarar a sua aversão aos que, por isto ou por aquilo, não pertenciam à “raça pura” ou eram contrários às suas ideias ou buscassem a igualdade e a liberdade!...

Também na aquisição de empregos o fascismo me pregou partidas, como, por exemplo: pela mão do Dr. Fernando Russel Cortez, que dizia ser “muito meu amigo”, para Animador de Acção Cultural no Museu de Grão Vasco, de que ele era Director, descobri que o meu requerimento de candidatura tinha, propositadamente, desaparecido, só voltando a ser visto, no fundo duma gaveta num armário/secretária, depois de supridas as vagas e nada já ser possível.

O que sou e o que consegui fi-lo com muito esforço, auto didacticamente, depois da “Revolução dos Cravos”.

Será preciso dizer mais alguma coisa?...

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Evolução ou destruição?

Se tudo rodasse sobre esferas o atrito estaria reduzido ao mínimo, deslizando tudo com tal suavidade que, por certo, nem daríamos conta do avanço do tempo. Ora isto que poderá parecer-nos óptimo, será que o é? Não será rotina mórbida e negativa pelo seu ostracismo ou melhor: “pelo deixa correr”?

O atrito permite a travagem, as mudanças de ritmo, a variação constante da marcha. Logo, o atrito ou os atritos também são necessários e importantes, já que possibilitam as mudanças da história.

A humanidade, nestes quase cinco milhões de anos que pisamos o planeta, tem sofrido, permanentemente, o efeito do atrito, umas vezes entre si, outras pelo girar da Terra pelo Cosmo. Mas – penso eu – tem sido bom, porque tem feito com que o ser humano tenha evoluído, não só em termos físicos, mas, sobretudo, ao nível da mente.

Entretanto, por mor desta evolução, uma questão se nos põe: será que estamos a evoluir no bom sentido ou estamo-nos a afastar para a rota da destruição (digo mesmo: da autodestruição)?

A segunda hipótese começa a plasmar-se, assustadoramente, á nossa frente. A ganância e o lucro estão a atirar-nos para o desprezo à casa que herdamos de nossos passados. Amanhã as paredes e o telhado acabam por ruir e nós cairemos esmagados pelas traves da nossa ambição e choraremos, se calhar já no além, lágrimas de sangue e arrependimento, porém, será tarde, muito tarde…

Quioto, desrespeitado, de nada e para nada valerá, tenhamos disto consciência!

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

A propósito do Entrudo

Quando alguém morre, mesmo que durante a vida tenha sido um estupor, sempre se escuta quem diga: – Ai era tão boa pessoa!... Todavia, é da tradição, no enterro do Entrudo o pseudo oficiante das “cerimónias fúnebres” fazer um empolado discurso em que, ao contrário do habitual, se injúria o pobre do rei momo, lançando-lhe em rosto (digo: em máscara) todos os pecados da sociedade local e se insulta acusando-o de todos os males que prejudicaram os habitantes da localidade, no decurso de um ano.

Isto mais não é do que exorcizar os mil “demónios” que, lamentavelmente, povoaram ou povoam as nossas mentes ao longo do meses ou da vida, buscando, desse modo, desculpabilizar pensamentos e actos de que, afinal, nos envergonhamos, mas aos quais não sabemos como fugir, pois estão enraizados no mais íntimo de nosso ser.

As duas atitudes são péssimas. A primeira porque revela um mal disfarçado interesse para obter benesses junto dos familiares do falecido ou, pior ainda, um cinismo, perversamente satânico, de achincalhar, pela falsa positiva, quem já não tem quaisquer meios de defesa. A segunda porque mostra todo o lado sórdido dos homens que, sob a capa do humor e da ironia, não são capazes de, por si e para si, resolverem os seus conflitos interiores e, então, numa descarada e despudorada diatribe, usam a figura do Entrudo para se libertarem de quanto os incomoda e perturba, psíquica e psicologicamente, numa ignóbil, no entanto, proveitosa terapia da palavra, melhor: do desabafo.

E… assim vai o mundo desde tempos imemoriais!...