quarta-feira, outubro 18, 2006

Amizade

A amizade – aprendi isso há longos, longos anos – é um bem que se deve preservar e, se possível, melhorar. A preservação da amizade é conseguida com respeito pela liberdade do outro e a melhoria pela solidariedade para com as dores e as aflições do nosso amigo, entregando-lhe, com toda a sinceridade, o nosso afecto.

Vem isto a propósito de ter ouvido, pessoa de nosso relacionamento, dizer que hoje em dia se tinham muito poucos amigos: conhecidos havia multidões, mas quanto a amigos o panorama era bastante escasso, o que me fez lembrar o célebre soneto do escritor Camilo Castelo Branco, quando a catarata lhe tirou, por completo, a visão e que reza assim:

Amigos, cento e dez, ou talvez mais,

Eu já contei. Vaidades que eu sentia:

Supus que sobre a terra não havia

Mais ditoso mortal entre os mortais.

Amigos, cento e dez! Tão serviçais,

Tão zelosos das leis da cortesia,

Que, já farto de os ver, me escapulia

Às suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci, profundamente,

Ceguei. Dos cento e dez houve um somente

Que não desfez os laços quase rotos.

Que vamos nós, diziam, lá fazer?

Se ele está cego, não nos pode ver…

Que cento e nove impávidos marotos!...

segunda-feira, outubro 16, 2006

Que fazer pelo bem da Hunidade?...

Há ocasiões em que nos sentimos ocos, com o cérebro tão preguiçoso que até cuidamos que perdemos a nossa massa encefálica: a fonte de todo o nosso humano viver. Mas não! Estamos assim porque algo de que não nos apercebemos nos afectou física ou emocionalmente. Este segundo factor é, quase sempre, o grande responsável por tal torpor intelectual.

A emoção que pode ser de gozo ou de desgostosa revolta, no momento em que ocorre, se não for, por qualquer motivo, (o parece mal, a distância a que se encontra a causa, a educação etc.) expandida provoca, no, ou nos instantes seguintes, um sentimento de frustração que, a mais das vezes, origina um terrível estado de perniciosa apatia: a tal vacuidade.

Por que estou eu hoje assim? È que, ontem, vi, num canal de televisão, uma reportagem sobre as dificuldades sentidas por quem, na Guiné de língua portuguesa, tem de recorrer ou prestar cuidados de saúde. A míngua é de tal dimensão que choca e dói de uma forma lancinante. E o pior de tudo isso, são as crianças. Meu Deus, o que fizeram elas para terem tanto sofrimento?!...

E não é só na Guiné! É no Mundo todo!

E nós o que fazemos? Ou, de outro modo, o que podemos fazer?

Confesso que desconheço, mas gostava bem de saber para dar uma mãozinha, no imenso, no tudo que há a fazer.

Que fazem os políticos deste Mundo? Ou não será a eles que cabe pensar, estudar e dar a resposta adequada à resolução destes gritantes casos e perturbadores problemas da Humanidade?...

sexta-feira, outubro 13, 2006

Ainda Ecologia

Antigamente, quando as pernas e a máquina, em geral, respondiam às solicitações da minha mente, dava longos e saudáveis passeios pelos pinhais, pelos prados, subia às montanhas e inebriava-me com as paisagens envolventes: tudo era limpeza e beleza natural. Não se via um papel sequer a conspurcar todo aquele enquadramento de maravilha e sonho.

Hoje, mesmo viajando de carro, sem me embrenhar fundamente naquelas maravilhas, o que vejo doe-me e faz-me pensar: são montes e montes de inutilidades a sujarem, até à beira da estrada, o nosso ângulo visual; são matas, desgraçadamente, descuidadas com emaranhados e excrescências vegetais avançando, selvaticamente, sem nexo, por todo o lado e aumentando, assustadoramente, o risco de incêndio no pino do0 Verão.

Por quê tanto descuido? Por quê tanta falta de civismo? Por quê tão grande falta de educação? Por que não se cumprem leis (que as há)?

E, por último, quem nos acode?

Só temos uma Terra! Cuidemo-la, ao menos!

Façamos isso, cada qual a seu jeito, e poderemos usufrui-la por mais alguns milhões de anos!...

segunda-feira, outubro 09, 2006

Ecologia

Num mundo torto e cheio de complicações de toda a ordem só pretendemos que não espezinhem os nossos direitos de cidadãos e, sobretudo, de seres humanos, como tantas vezes tem sucedido. É que esta matéria dos direitos e deveres, a mais das vezes, é um estandarte de fácil (mas indevido) manejo, quase sempre, por mãos impróprias. Pois só intentam, com tal atitude, chegar a “a brasa `sua sardinha” a qual, na maioria dos casos, não é a de melhor qualidade. Porém, como, infelizmente, a vida é feita de muitas coisas erradas, a demagogia é mais uma a que temos de nos habituar e aprender a destrinçar para não cairmos em esparrelas de muito boas falas, mas de resultados catastróficos, para cada um em particular e para todos em geral.

Mas adiante, que podem, como já aconteceu algumas vezes, apelidar-nos com nomes que não nos cabem e que nos chamam agressivamente pela simples razão de defendermos o Homem em si, sem atentarmos a credos religiosos, ideologias políticas e tendência sexuais. Sou do Benfica, mas respeito e entendo os Sportinguistas. Sou Cristão, mas encho-me de compreensão por todos os outros credos religiosos. Sou homem, mas amo os animais. Sou heterossexual, mas respeito e compreendo quem o não é. Sou habitante da Terra, mas aceito com amor todos os outros seres que, por certo, pululam pelos restantes mundos do Universo. Os rótulos não me doem, o que me magoa é a má fé e toda a maldade de quem me quer, com eles, ferir a minha dignidade de pessoa livre e igual às outras, mormente as minhas incapacidades físicas, intelectuais ou, mesmo, morais (se é que existem!?...)

Ainda dentro do espírito ecuménico de que estou a falar, muito me doeu, pelas imagens que presenciei, esta semana, quando da minha visita a pessoa amiga dos arredores de Viseu, ver bandos de caçadores, de arma ao ombro, numa busca frenética e (por que não dizê-lo?) desumana (quase histérica) a animais indefesos e, o que é bem pior, em vias de extinção no nosso país – caso do coelho bravo.

Quando olhamos para o número de caçadores em Portugal, que tiraram as suas licenças, ficamos deveras preocupados. Os números, na sua frieza e crueldade, falam, aos sensíveis para com os problemas do equilíbrio da Natureza, cada vez mais agredida e degradada, com uma eloquência digna do mais inflamado e erudito tribuno.

Quem se importa e acode a tal situação? Quem tem poder e coragem para tomar medidas severas e rápidas que salvem o nosso património cinegético e o reponham nos níveis de equilíbrio há tanto perdido?

Não nos cabe responder, mas, ao menos, “levantámos a lebre” na esperança de que muitas lebres e outras bichezas possam, graças a este alerta, vir a ser salvas.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Anonimato

Meu avô materno – pessoa de poucas letras – mas de imensa sabedoria adquirida na Universidade da Vida, em que era Catedrático Jubilado, dizia-me, bastas vezes, «tu usas um pseudónimo literário porque o teu nome é demasiado grande para ser lido, como assinatura dos teus trabalhos, na rádio ou para não ocupar demasiados tipos nos jornais, o que não è mal nenhum». (De facto José Lemos de Almeida Campos é de ficar sem fôlego). «Mas – acrescentava ele – nunca escondas o teu endereço, para que alguém que te queira contactar, para o bem ou para o mal o possa fazer. Depois, é a ti que cabe decidir se aceitas ou não o que te é dito ou proposto. Nunca te anonimizes no pseudónimo, nem numa falsa morada.»

Vem isto a propósito de alguém – pessoa culta, educada e inteligente – que, de forma delicada tem mandado comentários a este meu simples e humilde blogue, mas deixa-me sempre sem a possibilidade de lhe agradecer por via electrónica, como era e é meu desejo, pois se esconde (numa humildade desconcertante) sob a palavra. anonimusbloggers.

Que argumento pró e contra acrescentar às postagens? Elas, é minha intenção, subentendidamente deixarem – apenas e só – algumas breves pistas para que cada um se debruce sobre os assuntos em apreço de modo a que o raciocínio seja posto à prova por quem me honra com a leitura destas minhas modestas e pobres tretas.

No entanto, sei-o – não é arrogância, é constatação – alguma coisa fica! – Diria e bem Voltaire.