quinta-feira, outubro 05, 2006

Uma anedota verdadeira

Doença de família – a qual atingiu também o irmão e a irmã – pelo seu espírito irreverente e mais livre de preconceitos, fizera dele, dos anos quarenta a cinquenta e tal do século XX, figura típica na cidade de Viseu.

Latoeiro de profissão, Pedrinho cegara ainda não atingira o meio século de vida. Mas, porque conhecia a sua terra como ninguém, não se confinou a um viver sedentário de esmoler à porta de casa e era vê-lo – todos os dias, fizesse frio ou calor – de grossa bengala, pintada com riscas brancas e vermelhas, numa mão e caixa da rabeca a tiracolo, a percorrer a cidade em direcção às “quatro esquinas” (cimo da rua Direita). Aí, poisava o instrumento sobre o ombro esquerdo, tirava algumas arcadas que alegravam e encantavam os passantes compadecidos que lhe lançavam na caixa do instrumento, estrategicamente, colocada no chão, umas moedas que lhe permitiam ir molhar a goela à “Estrela Verde” ou ao “Senta Aí”, com uma aromática taça de tinto do Dão.

Certa vez, manhã gélida de Janeiro, em plena Rua formosa – que não era nada do que é hoje – junto á Farmácia Confiança, de um carro de vacas era descarregada uma pipa de vinho para uma tasquinha ali existente. Nesse preciso momento aproximou-se o Pedrinho que, no seu tactear de invisual, toca num dos animais e, porque era pessoa educada, julgando tratar-se de um casaco de peles, retirando prestes a mão, disse:

- Oh! Desculpe, minha senhora!

De cima da carroça das vacas, um dos homens esclareceu de forma bem audível:

- Não é Senhora nenhuma, Pedrinho. É um carro de vacas!

Desviando caminho, Pedrinho lá seguiu para as “quatro esquinas” a dar seu habitual concerto.

Cerca de uma hora após o incidente, retornou pelo mesmo trilho. Ao chegar, ao mesmo sítio onde havia encontrado a carroça que transportava as pipas de vinho, topa com a fidalga de Figueiró, a D. Mercês Pessanha, na época a pessoa mais rica e, por isso mesmo, mais conhecida e respeitada da região, muitíssimo bem agasalhada em seu magnífico casaco de peles. Ao sentir, na ponta dos dedos, aquele toque, porque o lugar era o mesmo, saiu-se de pronto, em voz bem alta, com o seguinte comentário:

- Cá está, outra vez, a puta da vaca!

(Do meu livro a publicar: "As minhas e as estórias deles")

segunda-feira, outubro 02, 2006

Ainda Desporto: Escola de virtudes

Ontem vi, no canal dois da RTP, o programa “a Alma e a Gente” de autoria do Professor Doutor José Hermano Saraiva e fiquei a saber (estamos sempre a aprender) que existem dois “desportos”: o dos gregos ou seja o dos ginásios que assenta basicamente no desenvolvimento da mente e do corpo e o dos romanos com os estádios, na altura chamados coliseus, cuja base é, meramente, o espectáculo em que uns tantos (na época eram os gladiadores que futilmente – digo eu – acabavam por se matar) para gáudio de uns milhares que, nas bancadas, ululavam, histericamente, de polehgar voltado para baixo e de mentes recheadas por pensamentos que hoje nos desonram como seres humanos e por sentimentos que – falo por mim – não sabemos definir.

Assim sendo prefiro o desporto dos gregos:”Mente sã em Corpo saudável”.

O outro é o desporto das massas ululantes como floresta em dia de vendaval; dos interesses económicos; do tráfico de influências para obtenção de vitórias; do “doping” para melhorar capacidades; das compras e vendas de homens e/ou mulheres, quais animais nas feiras; dos vergonhosos e indignos “apitos dourados” e sei lá que mais?!

Ou será que estou a ser conservador – numa palavra, Velho do Restelo”? Se assim é, deixem-me ser “Velho do Restelo”, pois eu quero, neste caso, ser um bom “Velho do Restelo”!...

Vejam lá como as coisas são! E eu que pensava que só existia um único desporto: o do aproveitamento dos tempos livre para satisfação do espírito e manutenção da saúde do corpo!... E esse sim, seria e é, escola de virtude!

domingo, outubro 01, 2006

E se eu me sentisse inferior com a crítica?!...

Embora não pareça, sempre gostei de ser construtivamente criticado, pois é graças a esse tipo de críticas que tenho evoluído e avançado na vida, não tão rápido e positivamente como era meu desejo, mas, em todo o caso – diga-se – tenho avançado. O que me torna feliz.

Quando, como é o meu caso, se nasce burro é sempre difícil tornarmo-nos portentosos em nossos pensamentos e na (nossa) forma de os expressarmos. Temos a idade que temos, mas estamos sempre, sempre a tempo de aprendermos. Por mais que estudemos, por mais que vivamos, por mais que lutemos contra castelos de areia ou moinhos de vento, sempre haverá algo que aprender, pois, de contrário, seremos eternamente “velhos do Restelo”.

Por isso, agradeço as críticas construtivas. E se eu me sent6isse inferior com a crítica?!... Mas não! Mesmo que elas (as críticas) se afoguem (sei lá por que motivo?) no anonimato ou em nomes que podem ser falsos. Mesmo assim: Bem hajam, por me ajudarem a melhorar!...

sexta-feira, setembro 29, 2006

Escola de viurtudes

Quando era garoto ouvia dizer que o desporto era uma “Escola de Virtudes”.

Essa ideia era tão arreigada em mim que, ao crescer e ao tornar-me homem, não era, nem sou ainda agora, capaz de entender toda a corrupção e todos os jogos de influências de que – como se vê pela Comunicação Social – ele está eivado.

«Corpo são alma sã»!

Qual alma sã?

Em que mundo estamos? Qual “Escola de Virtudes”?

Para onde vamos? E o que queremos para o futuro? Haverá futuro para o que vai tão mal?

Sejamos optimistas. Mude-se tudo. Faça-se tudo e construa-se uma nova mentalidade para que haja um Novo Desporto!

quarta-feira, setembro 27, 2006

Pensadores precisam-se

Dizia-me, há cerca de dois anos, o meu amigo e condiscípulo da Escola Técnica (no meu tempo ainda havia disso) Gualter Sampaio – Deus o tenha em bom lugar – que eu era, sou e sempre fui um pensador.

Surpreendeu-me a asserção, pois, para mim, a palavra só era aplicável a figuras como António Vieira, Alexandre Herculano, Almeida Garret, Vitorino Nemésio, Agostinho da Silva, Florbela Espanca, Natália Correia, Sofia de Melo Brinner ou outros, de igual porte intelectual e, jamais, a mim, mero e mísero poeta, escritor e jornalista, para aqui enterrado, nas graníticas vertentes das serranias da Beira.

Pensava eu (cá está de novo a palavra) que só era tido como pensador, quem tinha altas tiradas literárias. Agora – restolhando nas memórias do meu passado – verifico que, afinal, o Gualter tinha toda a razão, pois desde menino – face à minha deficiência motora – eu tive de usar a massa cinzenta para superar as minhas incapacidades físicas, inventando soluções que me ajudassem a fazer o que, à primeira vista, me estava ou está interdito. Assim sendo, aceito, efectivamente, que sou um pensador, talvez um tanto perdido no mundo do “pronto a usar”, onde “o pensar” se torna quase uma tarefa invulgar. Hoje ser pensador é – permitam-me a caricatura – ser uma “ave rara” na civilização das ideias feitas. Já não é preciso pensar. A Televisão dá-nos tudo já digerido. Os computadores têm programas capazes de nos resolverem os mais intrincados problemas. Pois é! Mas quem põe as imagens e as falas nas televisões? Quem cria os programas informáticos? Quem rastreia essas necessidades dos nossos dias?

E, depois, queixamo-nos do insucesso escolar, lamentamo-nos de que as coisas vão muito mal a nível da matemática, da ciência e do português! Sim, sim! É verdade! E o que se faz para pôr os miúdos a raciocinar, a discernir para que evoluam nos estudos e tomem gosto pelo uso do seu cérebro embrutecido pelos “Morangos com açúcar” e parado pelo dedilhar nos jogos de computador?...