sábado, setembro 16, 2006

Certezas e dúvidas

Outro dia, como muitas vezes faço, subi a velha e sempre típica Rua Direita, e eis que dei de ventas com um amigo da juventude o qual não via a uma eternidade.

- Ó Zé – perguntou-me – lembras-te do tempo em que, pensando que íamos virar o mundo, te punhas a organizar eventos de carácter cultural nesta cidade, então amorfa, em que o fascismo queria que nada acontecesse ou só sucedesse o que era de seu próprio interesse?

Sorri e disse: – Éramos loucos! Cuidávamos que as nossas minúsculas areias lançadas no lago do Parque, onde o Camões morria de tédio debaixo de um velho e carcomido castanheiro, poderiam provocar um tsunami capaz de tudo alterar e de fazer que os nossos (malucos, mas bem intencionados) sonhos se tornassem realidade. Como éramos ingénuos?!...

- Pois é – concluiu ele – mas foram essas tuas iniciativas, as minhas e as de muitos outros sonhadores como tu e eu que, por esse país fora, abriram mentes e consciências e, gota a gota, num crescendo, foram fermento para o 25 de Abril de 1974.

Fiquei surpreso com aquele raciocínio. Nunca tal me tinha passado pela cabeça! Quem era eu, se não um mero e irreverente jovem com paralisia cerebral?!...

Afinal, se Viseu progrediu, se Portugal avançou um pouco na História, melhorando a vida de muitos cidadãos – desgraçadamente ainda não de todos – isso foi e é resultante não só do empenho dos governantes de poder na mão, mas, também e sobretudo, da luta e das ideias de uns quantos loucos e sonhadores que, atrevidamente, no correr do tempo, foram e são capazes – mesmo arrostando com incompreensões e represálias de toda a ordem – de lançar areias no lago de um qualquer Parque, na tentativa de agitar águas estagnadas pela modorra rotineira de gente acomodada, porque de barriga forra. Cada qual fez (ou faz) revolução a seu modo e com as armas ao seu alcance.

Eu (se é que fiz alguma coisa) fi-lo pela via cultural com os parcos meios que tinha à mão. Fiz teatro, realizei tertúlias, organizei exposições de artes plásticas, colaborei em jornais e revistas, trabalhei em rádio e televisão, gritei, chorei, esbracejei, rebolei-me pelo chão (eu sei lá que mais?) sem nunca desistir, nem me envergonhar.

Contudo, agora tenho vergonha e tenho medo. Vergonha porque não vejo as coisas avançar como seria de esperar. Medo porque a apatia (fruto de restrições económicas) leva (quase sempre) ao retrocesso, ao desmoronar de quanto custosa, carinhosa e apaixonadamente já foi construído, entrando-se, então, em crise de cultura. Coisa má, muito má mesmo. Pois, como muito bem diz o Arquitecto Gonçalo Ribeiro Teles, «a crise cultural é muito mais grave do que a crise económica. A crise económica pode ter retoma, a crise cultural é irreversível.»

quinta-feira, setembro 14, 2006

Quem persiste existe!

Diz o Povo e muitíssimo bem que “quem não sabe é como não vê!”

Nada mais real e verdadeiro. Por mim tenho essa experiência. Para abrir – numa máquina que meu filho e nora me ofereceram, para não ter de ficar inactivo no lugar para onde “emigro” de segunda a sexta-feira, de cada semana – uma página, ou melhor: um ficheiro, estou a ver-me, autenticamente, como um ceguinho que não sabe o que fazer se é deixado sozinho, numa encruzilhada, duma terra em que nunca esteve. Pois é. Hoje sinto-me assim. Sou um sobrevivente de navio naufragado, metido num bote salva vidas, em pleno oceano de ondas alterosas. Olho o “monitor” em busca de algo que me indique onde está a “estrela polar” que me norteie e me diga qual o rumo a tomar. Melhor dizendo, qual o ícone a activar com a setinha provinda do “rato” (no meu caso TrackBall de comando de pé – engenhoca que o meu filho inventou para resolver o problema da minha deficiência motora).

Sinto-me perdido num turbilhão de dúvidas e de ideias. Sinto-me, aliás, como os portugueses. São tantas, tantas as coisas, neste país, que confundem e turbilhonam o espírito e a mente do cidadão comum, que se torna difícil entender e equacionar o que se vai passando em redor de cada um em particular e, ou de todos, no colectivo. O que, em princípio, parecia (e era) simples torna-se, de um instante para o outro, numa complicação de mil diabos. Ele é a Justiça que se despista em loas e tricas de palavreado inútil e em leis que atrasam e não levam à resolução rápida de processos e julgamentos. Eles são os políticos que, sem nexo ou influenciados por benesses a obter em futuras eleições, se lançam em acusações de pouco interesse para o bem da “rés pública”. Ele são, por último, os governantes que, sem terem noção das dificuldades dos cidadãos, exigem (ampliadamente) aquilo que acaba por levar o pobre do “Zé-povinho” à ruptura humana e económica, deixando-o sem saber em que inferno vai parar e, muito menos, sem saber como livrar-se de tamanho sufoco.

Portugal anda perdido. Os portugueses estão perdidos. E eu não vejo, pelo menos por agora, como descalçar a bota da minha ignorância informática. Entretanto, tal como todos os portugueses, vou em frente, sempre na esperança de dias melhores. Ficar parado, de braços caídos, isso é que nunca! Mesmo com as barbas a arder, o corpo dorido e a alma em ferida é preciso e urgente ir avante com confiança e certo da vitória.

Santo Deus! Afinal, consegui!

Não pelas lições que, em casa, me deram meu filho e minha nora, mas pela forma persistente como encarei a situação e, puxando pelos meus já gastos miolos, pus-me a fazer experiências que acabaram por resultar naquilo que pretendia.

O lema de Aquilino Ribeiro era: «Alcança quem não cansa!»

quarta-feira, setembro 13, 2006

Um dia de cada vez

Há alguns dias que não ouso escrever neste bloco de apontamentos, não por falta de assunto, mas porque assim o proporcionaram as circunstâncias. Uma delas, como não podia deixar de ser, de carácter literário. Devo referir que terminei mais um livrinho, que, provavelmente, ficará esquecido numa gaveta por falta de editora.

Se estou satisfeito com tal facto? Na verdade, não sei!

Por um lado é bom acabar uma qualquer obra, por outro é sempre angustiante ficar na expectativa da crítica de aceitação ou de rejeição daquilo em que, por algum tempo, estivemos empenhados. Quando metemos mãos a um trabalho fazemo-lo por gosto, tirando disso o maior prazer espiritual, sem nos importarmos sequer com o que possam pensar. Mas, ao findá-lo ficamos numa ansiedade difícil de entender e superar, pois apodera-se de nós a dúvida sobre a forma como vamos ser recebidos.

O melhor, então, é vivermos “um dia de cada vez” e metermos mãos a outra tarefa, empregando-nos nela de alma e coração.

É isso que estou a fazer. O que tiver de ser, será!!!...

terça-feira, setembro 12, 2006

Umas sim,outras não. Por quê?

Há, na Igreja Católica Apostólica Romana, coisas que, por mais que me esforce, não consigo entender. Será porque a minha instrução é insuficiente? Será que sou mesmo burro? Ou serão as duas coisas que existem em mim?

A questão pode pôr-se de uma outra forma bem mais concreta: O que é um santo? Aprendi, quando andava na catequese – já lá vão um ror de anos!... – que um santo era alguém que, pela sua fé em Jesus e em Deus Pai, pela sua bondade e abnegação em prol do bem estar dos outros, era digno de ser venerado nos altares.

Se assim é, expliquem-me, então, por que é que, em Portugal, a Rainha Isabel (piedosa e ilustre esposa de D. Dinis) foi considerada santa, e as Rainhas D. Leonor (sublime criadora das Misericórdias) e D. Estefânia (lutadora pelo bem das crianças, a ponto de ter criado o primeiro hospital pediátrico do país) o não são? E há mais que seria fastidioso, pela vastidão da lista, enumerar.

Foi pelos milagres, dirão. Quais milagres? O das rosas? Em que ficamos: o “célebre milagre das rosas” foi a nossa Rainha Isabel que – como diz o povo – o fez ou foi a sua avó Isabel da Hungria que, efectivamente, o realizou?

Ah! A Rainha Santa Isabel de Aragão (diga-se de Portugal) era muito esmoler. As outras rainhas também o eram. Ela – acrescentam – concretizou o milagre de, em plena batalha, ter conciliado pai e filho, em desacordo de ideais.

Pois sim! Não o contesto, Mas, então, será milagre um marido que a amava e respeitava profundamente e um filho que, também, a amava e respeitava de forma mais que evidente terem posto termo a uma contenda entre eles? Afinal – ó Deus! –, os cemitérios estão cheios de Santas e Santos dignos de serem venerados nos altares e de terem seus nomes inscritos entre o dos bem-aventurados!...

segunda-feira, setembro 11, 2006

2828 mortos. Será?...

Disseram, as entidades oficiais norte americanas, que nas Torres Gémeas de New Iork, em 11 de Setembro de 2001, pereceram 2828 pessoas.

Fico pensativo a olhar para tal número. Não por o achar demasiado grande, mas, pelo contrário, por ao olhar para todas as circunstâncias, o julgar demasiado pequeno. E a pergunta surge incisiva e dolorosa: será?

Quando ainda estava no activo jornalístico e tive de cobrir o choque de comboios de Alcafache, também, os serviços oficiais deram um número que me causou dúvidas (muitas mesmo).

Eu bem vi aquela amalgama de ferros calcinados e torcidos, pelo calor e pela violência do impacto, e, na manhã seguinte, dentre os escombros da tragédia, bem vi – repito - e apanhei, conjuntamente com os bombeiros e com alguns populares, para além de pedaços de carne, de cabelos e roupas ensanguentadas de corpos destroçados, muitos Bilhetes de Identidade, Passaportes e outros documentos que pertenciam a vítimas do desastre – o maior que relatei em toda a minha carreira de jornalista e foram 40 longos e trabalhosos anos.

Nestes casos, os números existem e são resultantes do que é visível e palpável. No entanto, sei-o agora pela minha experiência profissional e de vida, ficam sempre muito aquém da estatística.

Por isso, no caso do “apocalipse das Torres Gémeas” é-me lícito que ponha sérias reservas e, por isso, pergunte: 2828 mortos, será?...